Artigo: Precisamos falar sobre a ansiedade na juventude

  *Artigo escrito por Karina Picon


Créditos: Banco de imagens / Pexels

“É frescura”. “Na minha época ninguém tinha isso”. “É só não pensar nisso”. Frases assim ainda aparecem quando crianças, adolescentes e jovens tentam falar sobre o que sentem. O problema é que aquilo que costuma ser tratado como exagero pode esconder um sofrimento real. Se a ansiedade é hoje o transtorno de saúde mental que mais afeta essa população no Brasil, ignorá-la já não é apenas uma questão de comportamento: é uma questão de saúde pública.

A juventude sempre conviveu com inseguranças, mudanças e descobertas. A diferença é que, hoje, boa parte delas acontece sob exposição permanente. Redes sociais ampliam comparações, expectativas e cobranças. A vida do outro parece estar sempre disponível como medida de sucesso. Soma-se a isso a pressão por desempenho escolar, escolhas profissionais e aprovação social. Para muitos jovens, parece ser necessário demonstrar que se está vivendo bem.

Nesse cenário, falar sobre ansiedade não significa transformar qualquer tristeza ou preocupação em doença. Significa oferecer repertório para reconhecer o sofrimento e compreender quando ele deixa de ser passageiro e começa a interferir na vida.

A família ocupa um lugar decisivo nesse processo. Muitas vezes, a primeira reação diante da angústia de um jovem é tentar eliminá-la com conselhos: “não pensa nisso”, “vai passar”, “você tem tudo para estar bem”. A intenção pode ser proteger, mas o efeito pode ser o oposto.

Antes de procurar uma solução, é preciso criar espaço para a escuta. Mudanças persistentes no sono, no comportamento, no rendimento escolar ou no convívio social não devem ser automaticamente interpretadas como “fase”.

A escola, por sua vez, não precisa — nem deve — assumir o papel de consultório. Mas não pode ignorar o sofrimento que atravessa seus corredores. Professores e equipes pedagógicas podem ajudar a identificar mudanças, abrir espaços seguros de conversa e encaminhar os estudantes para o cuidado adequado.

Falar sobre ansiedade, portanto, é combater o silêncio que frequentemente atrasa os diagnósticos. Entre chamar de “frescura” e transformar toda dificuldade em transtorno, existe um caminho mais responsável: escutar, observar e saber quando buscar ajuda.

*Karina Picon é psicóloga, palestrante e autora do livro “Arte de Sentir”, que convida o leitor a criar um espaço de pausa, expressão e reconexão consigo mesmo


Com informações de LC - Agência de Comunicação

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